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Samir Xaud e o debate sobre quem realmente é dono da riqueza administrada pela CBF

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Quando um escândalo envolvendo a Confederação Brasileira de Futebol vem à tona, uma justificativa costuma surgir rapidamente para encerrar o assunto: a CBF é uma entidade privada. A frase parece simples, mas ao aprofundar a discussão fica claro que ela não resolve a questão principal. O caso do presidente Samir Xaud, acusado de utilizar a estrutura da entidade em viagens que envolveriam mulheres próximas ao dirigente, reacendeu um debate que vai além dos gastos atribuídos ao mandatário. Afinal, se o dinheiro da entidade não é público, ele pertence a quem? A resposta revela uma das estruturas mais peculiares do esporte mundial.

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Diferente de uma empresa comum, a CBF não tem acionistas, sócios proprietários ou controladores. Também não pertence ao Estado brasileiro. Trata-se de uma associação civil de direito privado sem fins lucrativos. O patrimônio não pertence ao presidente do momento, nem às federações estaduais isoladamente. Ele pertence à própria pessoa jurídica chamada Confederação Brasileira de Futebol.

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É justamente nesse ponto que aparece a primeira contradição. A entidade administra uma das marcas mais valiosas do Brasil, movimenta cifras milionárias e controla a seleção mais vitoriosa do mundo em títulos, mas não tem um proprietário que possa ser identificado como dono. Os dirigentes passam. A instituição permanece.

No capitalismo tradicional, empresas concorrem por consumidores. Quem não tem sucesso perde espaço e quem não obtém resultados desaparece. A CBF não se encaixa nesse modelo. Seu poder não foi conquistado pela competição, mas sim pelo reconhecimento institucional.

A Federação Internacional de Futebol reconhece apenas uma entidade nacional por país para representar oficialmente o futebol no cenário global. No caso do Brasil, essa função é da CBF.

A CBF não é dona do futebol brasileiro. Mas é a única autorizada a representá-lo. Com isso, pode organizar a Seleção Brasileira, representar o país nos congressos da FIFA, inscrever times e seleções em competições oficiais e negociar comercialmente os ativos ligados à camisa mais famosa do futebol mundial. O monopólio está na legitimidade para administrar esse patrimônio.

A história ajuda a explicar esse fenômeno. A entidade não foi criada pela FIFA. Ela é sucessora da antiga Confederação Brasileira de Desportos, fundada em 1914, numa época em que o futebol estava longe de ser a potência econômica de hoje.

A CBF foi criada em 1979 para cuidar exclusivamente do futebol nacional. Porém, o futebol brasileiro já existia antes disso. Pelé não foi criado pela CBF. Garrincha não foi criado pela CBF. Zico, Romário, Ronaldo, Marta, Ronaldinho e tantos outros também não.

A paixão nacional que transformou a Seleção Brasileira em um ativo global foi construída por gerações de atletas, clubes e torcedores. A entidade administra esse patrimônio, mas não foi ela quem o criou.

Outra contradição aparente está no fato de ser uma entidade sem fins lucrativos. Apesar dessa classificação jurídica, a CBF acumula receitas milionárias ano após ano. Patrocínios, direitos de transmissão, contratos comerciais e acordos internacionais fazem da entidade uma das mais ricas do esporte latino-americano.

Isso não significa irregularidade. Uma associação sem fins lucrativos pode gerar superávits, aumentar patrimônio e ampliar receitas. A diferença é que esses recursos não podem ser distribuídos como lucros para dirigentes ou membros.

Em teoria, o dinheiro deve ser reinvestido nos objetivos que justificam a existência da entidade. E é justamente aí que o caso Samir Xaud ganha importância. A discussão deixa de ser apenas jurídica e passa a ser institucional.

Quando um empresário usa recursos de sua empresa, existe um proprietário identificado por trás daquele patrimônio. Na CBF, a lógica é diferente. O dirigente administra, mas não é dono. Controla, mas não possui.

A pergunta, portanto, não deveria se limitar a saber se o dinheiro é público ou privado. O ponto principal é: qual é o propósito desse dinheiro?

Se a entidade existe para desenvolver, organizar e representar o futebol brasileiro, qualquer uso de seus recursos inevitavelmente será confrontado com essa missão institucional. Por isso, o debate vai além da esfera criminal e alcança temas como governança, ética e responsabilidade administrativa.

Há ainda uma última reflexão para entender por que crises na CBF costumam provocar reações tão intensas. A entidade administra uma enorme riqueza. Mas essa riqueza não nasce em seus escritórios. Ela surge nos campos, nas arquibancadas, nas audiências, nos clubes, nas categorias de base, nos atletas, treinadores e na paixão de milhões de torcedores que fazem do futebol um produto cultural quase sem igual no país.

Do ponto de vista de mercado, a Seleção Brasileira é uma potência global. Socialmente, é símbolo nacional. Economicamente, movimenta valores que atravessam gerações. E tudo isso só existe porque o futebol foi construído coletivamente.

Por isso, dizer que a CBF é apenas uma entidade privada não basta para encerrar a discussão. A instituição não tem donos, mas administra um patrimônio que, de certa forma, foi construído por todos que transformaram o futebol brasileiro no produto mais valioso do esporte nacional.

E é justamente essa contradição que faz com que cada novo escândalo levante uma pergunta cada vez mais difícil de ignorar: se ninguém é dono da CBF, quem deveria ser o verdadeiro destinatário da riqueza que ela administra?

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